porque o único computador seguro é o que está desligado

bidens_sunglasses_and_dunce_capEm tempos idos, quando o mecânico do automóvel dizia que o problema estava no “desempenador de centelha” ou na “rebimbela da parafuseta”, restava ao infeliz cliente aceitar o diagnóstico e pagar pela solução, qualquer que fosse. Ninguém é obrigado a entender das tecnicalidades de todas as profissões que nos cercam. Hoje em dia, talvez exista mesmo um “desempenador de centelha”, tamanha a presença da eletrônica nos automóveis modernos.

A mesma coisa vale para termos e expressões médicas que, ainda assim, evoluem com o tempo. Você sabia que o “ouvido interno” está dando lugar à “orelha interna”, e que a “glândula suprarrenal” está virando “glândula adrenal”? Neste último caso, a coisa faz sentido: é mais lógico definir algo pela função que desempenha do que pela posição que ocupa em um conjunto.

Voltando ao assunto, quando o tema é informática, no entanto, a coisa muda de figura. Cada vez mais onipresente em nosso cotidiano, começando mesmo a ser vestível, a TI emprega termos e expressões cujos significados podem variar de acordo com o acervo de conhecimento do falante. E, como o ouvinte é mais interessado nesse tema do que naqueles que envolvem adrenais e carburadores, o estrago causado pela desinformação pode ser grande.

Isso me veio à mente quando ouvi a diretora-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Magda Chambriard, garantir que não é possível ter havido espionagem no banco de dados de exploração e produção de petróleo de Petrobras, porque “o banco não é ligado à internet”, logo os dados não vazaram. Ora, Magda, não mude de assunto. Desde quando informações sensíveis são guardadas unicamente em mainframes ou mesmo clusters de servidores? E os e-mails contendo minutas de contratos? E a “rádio e-mail”, substituta da “rádio corredor”, que dissemina conversas informais sobre negociações e prospecções em andamento? E as convocações para reuniões sobre temas estratégicos, contendo o assunto e a pauta? Uma intranet — a rede interna de uma instituição — tem contato com a internet (ou “extranet”). O Washington Post foi invadido após um funcionário abrir um e-mail que recebeu de pessoa conhecida (que, por sua vez, estava com a máquina infectada) e clicar num link. Foi o que bastou.

Assim, quando um invasor lê e-mails que circulam na intranet de uma empresa, já está garimpando informações preciosas e pode muito bem vir a encontrá-las. No meu dicionário, isso caracteriza espionagem, apesar da desinformação plantada pela presidente (com “e” no final e duas pedras de gelo, por favor) da Agência Nacional do Petróleo. Resumindo a ópera, quem ouve o que a presidente (idem) do Brasil fala ao telefone, bem pode ler um e-mail de um diretor da Petrobras, capisce?

Foi esse exato tipo de distorção que Orwell (sempre ele) batizou em “1984″, apesar de não ter sido o inventor dos conceito de “novilíngua” e “duplipensar”, em si; Stalin é Goebbels eram mestres na arte, e seus discípulos proliferam como cogumelos depois da chuva, apesar do clima seco de Brasília. E não há novilíngua, marqueteiro ou assessor de imprensa que consiga varrer perdas grandes para baixo do tapete, aí incluída a perda da credibilidade da agência que Magda dirige.

 

Leave a Reply